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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Os mestres da culinária...

Eu ainda sou do tempo da Filipa Vacondeus com o seu ar "supé-chique" a ensinar donas-de-casa de classe média a preparar pratos "supé-giros" a partir de restos de comida.
Ainda sou do tempo em que o Manuel Luís Goucha era um magricela discreto que também dava a sua perninha nas rubricas de culinária nos programas multi-usos da televisão pública.
Sou tão antiga que me recordo do Michel com a sua careca reluzente e pronúncia de emigra, do chefe Silva e de outros tantos cozinheiros, vulgares homens e mulheres de avental, que partilhavam receitas simples com ar banal nos raros momentos em que a comida era assunto.
Hoje, é impossível não fazer zaping entre dezenas de canais e chocar com dois ou três programas de culinária, apresentados por chefs que são uma espécie de pop stars ou sex symbols
Se há uns anos, quando a minha querida Mãezinha me quis começar a ensinar os básicos do arroz e dos refogados, recusei o desafio clamando que na minha casa toda a refeição se prepararia por passe de mágica entre o congelador e o micro-ondas, nos tempos que correm qualquer moça (ou moço) que se preze tem de ser capaz de preparar um menu degustação com dez pratos, combinando ingredientes inusitados com recurso a fórmulas de alquimia.
Ufa! É cansativo!
Vejo programas como o Master Chef da Austrália e fico abismada como enfermeiras ou marceneiros percebem tanto sobre reduções, espumas, acidulantes, brunoises, chiffonades e ratatouilles, cozinhando pratos absolutamente extraordinários sem o auxílio de uma Bimby!
A elevação das técnicas culinárias ao estatuto de artes decorativas, a transformação dos cozinheiros simplórios do nosso imaginário em chefs do tipo casual chic, coincide com uma época em que supostamente devíamos estar todos a reduzir o orçamento gasto em mercearia.
Na prática, os chefs que enchem tantas horas de televisão são apenas entertainers.
Assistimos aos programas para absorver ideias, para nos sentirmos inspirados, para nos abstrairmos do tédio que é ter de fazer o jantar sete dias por semana, até ao final das nossas vidas.
Claro que estamos a comer diferente. Apresentar um prato com bife a cavalo rodeado de batatas fritas está tão out como as botas texanas ou as calças com cintura acima do umbigo.
Qualquer cidadão socialmente ligado que se preze coloca sobre um prato de design arrojado uma porção moderada de bife ao lado de uma palete de rúcula e tomate cereja, fotografando tal instalação gráfica para oportuna publicação legendada nesse diário que é o Facebook.
Ainda hoje não consigo perceber porque os pratos com comida recebem invariavelmente mais likes do que uma música de sonoridade fácil ou um comentário oportuno sobre alguma actualidade partilhada nos feeds.
Quando Anthelme Brillant-Savarin (filósofo francês) dissertou, em pleno sec XIX, sobre a premissa "diz-me o que comes que eu digo-te quem és", jamais imaginou que quase 200 anos mais tarde uma parte significativa da humanidade andaria a revelar ao mundo a sua personalidade através de fotografias de comida.
Segundo os psicoterapeutas, no nosso subconsciente a comida é uma forma de amor.
Se assim é, provavelmente endeusamos esta forma de comer fantástica com a mesma intensidade romântica com que na nossa infância sonhávamos com contos de fada com final feliz...



segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Life's a beach...


Por estes dias estive de férias.

Antes da partida os dias foram curtos para as imensas tarefas a antecipar; as horas tornaram-se apertadas para os compromissos que subitamente se revelaram inadiáveis; cada minuto foi contado, contabilizado e rentabilizado de forma a garantir uma pausa de sete dias sem acesso a mail e com reduzido acesso ao telemóvel.
Sim, foram apenas sete dias noutro fuso horário, sem wi-fi, num novo planeta onde não me faltou apenas a rede, mas sim todas as redes que ao longo do dia me permitem viajar para lá dos metros quadrados do open space.
No regresso, na semana adicional de férias com que me premiei (depois de três anos em que nunca gozei mais do que cinco dias úteis seguidos, dez dias de férias por gozar acumulados por cada ano de trabalho), para grande surpresa minha, não tive vontade de "me ligar".

Ando há algum tempo a readaptar-me aos horários e compromissos, como quem recupera de um inter-galáctico jet lag.

Quando nos remetemos a uma cura de sono, a uma terapia assente em petiscos, sestas à sombra e passeios pela areia, brincando infantilmente com as ondas do mar, percebemos como são longos os dias, quanto podem ser profundas as conversas, como é maravilhoso estar num sítio que fazemos nosso - apenas estar, sem agenda nem plano fixo - usufruindo de uma existência com regras subtis, que dispensa o smartphone e o ipad.
O meu regresso à vida real foi caótico, como sucede sempre, mesmo sendo este o mês em que os telefones tocam menos vezes e é reduzida a probabilidade de se marcarem reuniões estratégicas ou de receber pedidos de relatórios com mais de duas páginas.

Fiz um retiro numa praia com um número restrito de turistas, sem feeds, comentários ou gostos. Redescobri como somos mais livres e genuínos quando nos libertamos dos trajes e máscaras com que nos passeamos pelos cenários que edificamos para contar a nossa história. Confesso que não resistiria a tamanha calmaria como rotina porque o bulício e o caos latino são substâncias aditivas que me correm no sangue.

Admito contudo que há muito tempo não me acontecia esta paz de espírito tão tranquila, estado de graça apenas possível quando o tamanho do nosso mundo corresponde à extensão de uma praia...



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

All you need is love ou a gestão de marca pela paixão

O ser humano é gregário.
Vivemos em grupo, em sociedade, construímos relações. Somos alguém com os outros, para os outros, para além dos que nos rodeiam.
Por sermos assim, tão dependentes dos relacionamentos para sermos alguém, somos seres profundamente emocionais.
Não surpreende por isso que o marketing de hoje se baseie na gestão de emoções.

As marcas alimentam-se dessa necessidade biológica fundamental de criar laços com o que nos rodeia.


Amamos a praia, a nossa casa, a cidade onde nascemos, uma paisagem bucólica alentejana ou um enquadramento de parar a respiração numa encosta perdida do Douro.
Se o ódio é uma antítese do amor do mesmo modo necessitamos de alimentar ódios de estimação em relação ao Pinto da Costa, ao leite de soja, ao Calçado Guimarães ou às lojas dos chineses.
Vivemos de emoções, com emoção.
Temos critérios de avaliação, uma forma de classificar e de catalogar que raras vezes saí moderada, dada a nossa apetência cifrada para extremar sentimentos e opiniões.

As decisões de compra não se baseiam em raciocínios lógicos mas nas ligações emocionais que estabelecemos com as marcas.

A gestão de uma marca deve ser capaz de tocar em todos aqueles pontos emocionais em que assenta o desenvolvimento de uma relação. O objectivo é que o consumidor perceba essa "coisa inanimada" que é um marca como um prolongamento do seu eu.
As respostas que a marca dá, as necessidades que satisfaz, têm a ver com conteúdo não com funcionalidade.
A Apple vende produtos caríssimos com montes de particularidades e de incompatibilidades (confesso que ainda hoje tenho dificuldade em lidar com o touchpad do meu MacBook). Contudo, as pessoas que compram produtos Apple, que consequentemente se tornam viciadas e fãs, compram a marca pelo design e pela certeza de que a empresa é líder em inovação e criatividade. Quem tem produtos Apple sente-se à frente dos outros, acima da média.
A Nespresso é outro exemplo de gestão da marca pela emoção. O amor que estabelecemos com a marca tem a ver com o grau de sofisticação com que esta se comunica. O café Nespresso é uma espécie de luxo acessível que nos transforma em pessoas requintadas, equiparadas em bom gosto e classe ao charmosíssimo George Clooney. Há marcas de café em cápsula incomparavelmente mais baratas, mas proporcionam uma emoção contrafeita: apelam a questões racionais como a economia e não a factores carregados de subjectividade como a sensação única de pertencer ao jet set dos apreciadores de café, a um imenso mas selecto clube privado.

A gestão de uma marca não tem nada a ver com o produto, 
mas sim com a capacidade de idealizar o universo fantástico onde esse produto existe.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Love is in the air

Mesmo sabendo que se trata de uma data que o marketing de massa desvirtuou, mesmo sendo alérgica a corações e peluches, cartões com frases pindéricas e programas pretensiosamente românticos, é inevitável escapar à mixórdia temática do Dia dos Namorados, que decreta que devemos fazer uma surpresa à cara-metade ou alinhar num desses eventos para descasados, descomprometidos ou ressabiados.
Muitas empresas já descobriram que o amor (e seus sucedâneos) são um grande negócio.
Não me refiro apenas à restauração e à hotelaria, que nessa data - que este ano até proporciona um jantar com direito a pequeno-almoço, com duas noites de pernoita para os mais afortunados - colocam umas velas na mesa e uns nomes sofisticados no menu para se cobrarem de uns imerecidos euros em jantares pálidos para casais apáticos. Tudo o que é loja de flores, de roupa ou de artigos para a casa recicla a oferta, concede-se uma derradeira oportunidade para despachar saldos ou comercializar avanços de temporada, recupera das arrecadações o espólio de inutilidades fofinhas que com sorte vão ser oferecidas com laço a um parceiro numa data que o calendário obriga a celebrar. Há ainda as perfumarias, os spa's, os programas radicais e as surpresas preparadas em série que um dos elementos do casal compra em stress ou com esmero apurado e que o outro recebe com apupo ou com aplauso.
Confesso que comemoro a data. Nos anos recentes o S. Valentim tem para mim e para o meu "companheiro de estrada" uma simbologia própria que me escuso partilhar.
O que partilho sim são dicas de marketing que encontrei na net sobre como potencial vendas nesta data:
O super fashion restaurante Gilgameshbar em Londres criou um cocktail chamado "Diamonds are forever" especialmente para esta ocasião. O cocktail acompanha o menu especial para o jantar de S. Valentim e é claro que namorado algum ousará não pedir a bebida mesmo custando esta mais de 10 libras (quase 13 euros). A inovação não é a bebida em si e o preço nem sequer é questionável quando a promessa é que um dos convivas da noite terá a forte probabilidade de encontrar um diamante verdadeiro no fundo do copo. Esta pedrinha é disponibilizada pela joalharia Madison Diamond Rings onde o felizardo é convidado a assemblar o presente que lhe foi servido num belíssimo anel tipo noivado.
Este é o verdadeiro exemplo de uma promoção cruzada que dá poucas hipóteses de fuga ao mercado-alvo, sendo certo que muitas das meninas que se sentarem no Gilgamesh estarão à espera do anel no dedo durante ou na sequência dessa noite, seja pelo efeito do álcool seja de espontânea vontade...
No Debenhams a estratégia foi criar um guia com o epopeico nome "Mandamentos da Lingerie" com o intuito de ajudar homens românticos a comprarem o conjunto adequado para a sua partenaire. A estratégia tem um intuito óbvio de gerar vendas mas também de minimizar o complicado processo de trocas que normalmente se sucede a datas como esta.
A pouco romântica marca de bebida Dr Pepper desenvolveu uma campanha orientada para o mercado adolescente através de uma app do Facebook. A mecânica ajusta-se como uma luva ao histerismo das meninas de catorze anos já que quando o utilizador faz um "like" na App é girada uma garrafa entre seis amigos identificados previamente e enviada uma mensagem de S. Valentim para o mural daquele que for aleatoriamente selecionado.
PWC, uma das empresas que só com uma imaginação prodigiosa se pode associar a marketing romântico, aproveitou a proximidade da data para visitar campus universitários com potenciais recrutadores identificados com balões em forma de coração com a frase "Being the one at the heart of the best opportunities".
A empresa Blur, especializada em crowdsourcing e marketing digital, concede aos seus clientes - empresas e criativos - a oportunidade de declararem o seu amor uns pelos outros, ou de eventualmente carpirem as suas mágoas. Esta agência já não é convencional na forma como faz coincidir clientes e prestadores de serviços, oferecendo-se como o "intermediário casamenteiro" entre quem quer pagar marketing e quem tem qualidade para o vender.
Estes exemplos mostram como o 14 de Fevereiro é apenas mais um dia para dar asas à criatividade...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Porque nos apaixonamos por uma marca?

Começo por clarificar o conceito de paixão que aqui utilizo como aquele sentimento de fascínio em relação a determinada pessoa. Esse sentimento pode evoluir para algo mais forte ou esfumar-se com o tempo.
Há marcas com as quais desenvolvemos relações deste tipo.
Algumas são in&out's, uma espécie de paixão de Verão, coisa efémera sem sequela que até nos embaraça em retrospectiva. Outras vão ficando, instalam-se na nossa vida, fundem-se com a nossa personalidade, são veículo de transmissão do que somos e do que pensamos, eventualmente do que aspiramos ser ou do que queremos que os outros pensem sobre nós.
As empresas cuja marca é um activo determinante gastam fortunas para tentar manter a chama acesa. Mas afinal, o que nos faz apaixonar por uma marca?
Um estudo publicado no Journal of Consumer Psychology concluiu que a ligação que uma pessoa estabelece com uma marca é tão mais intensa quanto menor a distância psicológica entre o produto e o consumidor. Ficamos apaixonados pelas marcas a partir do momento em que as vemos como um prolongamento de nós próprios.
Como é evidente, a paixão por uma marca não se desenvolve a partir dos seus benefícios funcionais.
Entre seres humanos, se a paixão tivesse como ponto de partida a funcionalidade praticamente qualquer parceiro era elegível. Os critérios que determinam a nossa escolha têm que ver, em primeiro lugar, com a experiência sensorial, com o que vemos, cheiramos, tocamos, provamos e sentimos. Quando nos apaixonamos por uma pessoa gostamos do que ela é, como um todo - pacote, conteúdo e imagem -, mas acima de tudo do que ela nos faz sentir e/ou das reacções que provocamos nos outros quando temos essa pessoa ao nosso lado. Por mais cruel que possa ser a afirmação, de facto a opinião dos outros conta quando estamos a falar da paixão...
Tudo isto se resume a uma palavra: prazer.
O prazer da paixão não é necessariamente sexual. A conquista por si só pode ser mais orgásmica do que a consumação.
Nos produtos sucede o mesmo: a compra pode dar-nos tão ou mais prazer do que o consumo. A mera propriedade, ou a ostentação, podem ser as derradeiras fontes de satisfação, independentemente do beneficio efectivo que aquele produto promete e cumpre.
Um exemplo fácil para explicar esta paixão é o i-phone da Apple.
Apesar de nos dias que correm a funcionalidade de um telemóvel ser um pouco difícil de sintetizar, se nos focarmos no básico que é comunicar há milhares de modelos que satisfazem esta necessidade.
Podemos reduzir o painel através de requisitos técnicos como os GB de memória ou os pixels da câmara, mas mesmo assim ficamos certamente com uma mão cheia de opções.
O que nos leva a eleger o i-phone - e ao que me parece a relação é do género "quem vai não volta" - é o status que a marca nos confere, a sensação de pertencer a um clube privado do qual só faz parte gente gira, famosa e hype.
Os produtos da Apple têm um design único, simples mas sofisticado, têm uma utilização fácil e exclusiva cada vez mais copiada. Mesmo que a concorrência imite e até supere estas vantagens enumeráveis não conseguem ultrapassar as sensações inumeráveis que a Apple proporciona. Ter um i-phone, um i-pad, um MacBook, por inerência ficar viciado na marca e nas suas apps particulares, é sinal distintivo que nos eleva o patamar.
Amamos as marcas que garantem este retorno emocional, a certeza de que a sua presença no nosso património nos recompensa com paixão à nossa volta, quanto mais não seja porque a marca nos faz gostar de quem somos, ou porque permite que nos aproximemos da personagem que gostávamos de ser, produzindo uma uma adrenalina feliz que se chama amor próprio.



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Os 4 P's da felicidade

Todas as pessoas que estudaram marketing ouviram falar dos 4 P's.
Como os americanos adoram converter o universo em siglas e cifras, em fórmulas fáceis de perceber e de assimilar, eis que um rapaz que escreve para a Wired e que tem um site cuja visita recomendo (Barking up the wrong treesintetizou os milhares de estudos sobre felicidade que se fazem pelo mundo em 4 P's.
Na prática, os p's acabam por não ser apenas 4 e a sua base de trabalho foi um livro que fala em 100 segredos das pessoas felizes (podem comprar o livro na AMAZON).
Mesmo assim, como também sou fã destas receitas e mezinhas, eis os 4 P's que resumem o nosso bem-estar:
(nota: este post não é uma tradução do texto original mas sim uma interpretação criativa do mesmo)

Purpose -> PROPÓSITO
O nosso propósito será um desígnio maior do que apenas crescer, estudar, trabalhar, casar, constituir família e dívidas, pagar hipotecas e descansar em paz.
O que dizem os estudos é que mesmo que não sejamos fervorosos adeptos de Deus ou de um Pai de Santo devemos procurar uma forma de encher de significado os nossos dias, perseguindo um objectivo que fique para lá da nossa realização, uma estrada mais larga do que o caminho que fazemos caminhando.
Há pessoas, como o Cristiano Ronaldo, que nasceram predestinadas a grandes feitos e a vitórias gloriosas. Presumo que o puto nem sempre tenha tido a noção desse propósito, mas em momentos como o do decisivo jogo de Portugal na fase de apuramento o CR7 revelou que tem a noção de que o "eu estou aqui!" com que apaziguou a ansiedade nacional teve o impacto de um milagre, uma benção para uma fé capaz de competir em intensidade com a de uma concentração em Fátima num 13 de Maio soalheiro (com todo o respeito de católica não praticante que este local me inspira).

Perspective -> PERSPECTIVA
O melhor exemplo de perspectiva é a história do copo meio-cheio ou meio-vazio, a forma como um optimista ou um pessimista percebem a mesma realidade.
Voltando mais uma vez ao exemplo do futebol - não porque goste mas porque hoje é inevitável escapar ao tema -, existia uma maioria mais ou menos silenciosa que pouco acreditava no apuramento da selecção nacional, e que até aguardava com alguma impaciência pela derradeira derrota para se dedicar com entusiasmo ao desporto com mais adeptos em Portugal: a crítica destrutiva.
É possível uma pessoa sentir-se feliz com pouquíssimos bens materiais numa humilde casinha numa ilha sem praia. Mas havendo a possibilidade de subir de patamar, de comprar umas roupas de marca sem ser aos ciganos, de ampliar a casa sem recorrer a marquises, poucos resistirão à tentação de esbanjar como se não houvesse amanhã. Que o digam o humilde Cristiano Ronaldo e todo o clã Aveiro!
O conceito de dinheiro como fortuna tem uma elasticidade enorme. De igual modo o conceito de felicidade não tem peso nem medida.
O mais correcto é associar-se a felicidade à gestão de expectativas, sendo certo que quanto mais ambiciosos são os nossos sonhos mais defraudados nos sentimos com o que a realidade nos devolve. Aqui não falo de sonhar com euros e receber em dólares mas sim de querer ganhar o jackpot a jogar ao monopólio.

People -> PESSOAS
De acordo com um estudo, obtemos 70% da nossa felicidade a partir das nossas relações com os outros.
A família e a profundidade dos laços que nos unem aos do nosso sangue, os amigos, em quantidade e na qualidade dos sentimentos que por eles nutrimos, todas as formas de contacto e de afecto que desenvolvemos em sociedade são fundamentais para nos encher o coração e consolar nos maus momentos.
Nesse aspecto os social media, independentemente de nos poderem afastar de "pessoas reais" e de promoverem um comportamento narcisista, fomentam e fortalecem as relações entre seres humanos, aproximando pessoas com gostos similares, facilitando a expressão de emoções e a partilha.
Graças ao Facebook reencontrei amigos de infância e desenvolvi laços com colegas de trabalho mais longos do que a ensonada troca de palavras junto à máquina do café alguma vez permitiria. Descobri também que existem pessoas insuportáveis que utilizam as redes sociais como uma espécie de saco de porrada ou como um mundo em desenho animado que atulham com pirosadas kitsch.
Nós que vivemos em ambientes controlados, que com relativa facilidade aceitamos amizades ou as eliminamos com um clique, conseguimos manipular o micro-cosmos que nos envolve garantindo alguma estabilidade na nossa existência. É claro que há pessoas más, que deliberadamente nos prejudicam e ofendem. É evidente que nem sempre as conseguimos escorraçar ou evitar na nossa trajectória, mas se acreditarmos nessa justiça divina que garante a ordem universal, assegurando que cada um recebe em dobro aquilo que oferece, então só teremos de ter o espírito optimista para aguentar o copo meio vazio até que a outra metade encha.

Play -> BRINCADEIRA
Costumo dizer que as pessoas inteligentes têm sentido de humor.
Rio-me muito. Nao é coisa que provoque (creio que fingir o riso é uma impossibilidade) mas algo que me acontece, muitas vezes de forma inusitada, principalmente em circunstâncias em que os nervos ou a cerimónia sugeriam uma pose sóbria.
Fui uma criança feliz e estridente. Sou uma adulta alegre e brincalhona.
Há pessoas que puxam de um cigarro para encher o tempo. Eu uso do humor para que o tempo não conte... e para quebrar o gelo.
É um refúgio tão legítimo como o dos tímidos que se camuflam com uma postura extrovertida (a timidez disfarçada também é uma das minhas características...).
Assumo que tenho alguma dificuldade em entender e em relacionar-me com pessoas cujo semblante é por definição sério, aquelas que demonstram uma dificuldade extrema em fazer o movimento de inflexão dos lábios que nos ilumina o rosto com um sorriso.
Nem sempre conseguimos contar uma anedota no tom que lhe dá a graça ou retribuir com simpatia  os esforços humorísticos de outra pessoa, mas será sempre mais fácil encarar a realidade quando somos um bocadinho palhaços, quando verbalizamos um disparate que desconcerta os outros, quando "soltamos a franga" e descontraímos.
Acresce ainda, que um sorriso é a nossa melhor maquiagem, alegadamente a melhor curva do corpo de uma mulher, se conseguirem não nos olhar para o rabo...

domingo, 29 de dezembro de 2013

Solteiras - Divorciadas - Mal casadas

O nosso estado civil é um rótulo. Identifica-nos, cadastra-nos, remete-nos para um segmento, para uma categoria. Independentemente dos clichés e dos preconceitos a verdade é que o estado civil, a par da existência ou não de filhos, influencia os nossos hábitos, altera as nossas prioridades, define modos de vida.
Para os homens chegar a solteiro numa idade como a minha - QUARENTA! - pode ser sinal de homossexualidade. Noutros tempos, homens sozinhos eram vistos como garanhões mas assim se mudam os tempos...
Para as mulheres chegar a solteira nesta faixa etária é indicador de mau feitio, presunção de amores mal resolvidos que se manifesta nalgum azedume frustrado. Claro está que muitas mulheres se mantêm solteiras por convicção, por opção própria. Contudo, para quase todas as que conheço, houve uma qualquer etapa no seu percurso em que conhecerem o suposto príncipe encantado, equacionaram a hipótese de ter filhos, sonharam com o vestido de noiva, imaginaram-se numa casa com jardim, com cão, com um mono-volume à porta, com crianças lindas à anúncio da Ralph Lauren. 
Eu, como filha única viciada em solidão, convivo muito bem comigo própria. 
Mas, como filha única, quando penso num futuro onde me faltem os meus pais, imagino uma existência sombria em que o silêncio será um castigo mais do que uma benção.
O meu ideal de vida é ter um melhor amigo para sempre, o homem que me provoque arrepios e sorrisos, me envolva com um abraço feito à medida, me apoie e me eleve, caminhe ao meu lado com a sua mão segurando a minha mesmo quando os nossos passeios sejam deambular pelos corredores de um lar.
Para algumas das amigas sem par que conheço encontrei um artigo de uma PhD especialista em Amor e Sexo, Laura Berman, que enuncia as dez principais razões que justificam a sua condição. Aqui fica a síntese para reflexão:
1.  Fazer-se difícil
O conceito de "difícil" é relativo já que a rapidez ou a forma com que uma mulher se envolve com um homem resume-se a uma gestão de tempos e de expectativas.
Na minha perspectiva, ser difícil passa mais por ficar agarrada a hábitos e rotinas sem grande flexibilidade para programas alternativos mesmo os que não envolvem a presença de um homem. É na rua que se conhecem pessoas pelo que permanecer hibernada reduz para zero todas as probabilidades.
2. Ter um tipo
Todos temos um tipo, um género de pessoa, um ideal de beleza e de sex appeal. Trata-se de um filtro humano que condiciona as nossas escolhas em tudo na vida desde a escolha de uma peça de fruta aos complexos mecanismos da atracção. Parece-me lógico que uma mulher não se interesse por homens baixos, gordos, carecas, é justificável que rejeite alguém pela forma como está vestido ou sinta repugnância ao ver pêlos a sair das orelhas ou pressentir odores corporais estranhos. Contudo, continuar à espera de um príncipe atlético, bonito e charmoso avaliado por checklist vai resultar invariavelmente numa elevada taxa de rejeição. 
3. Não pedir ajuda
Quando estamos sem namorado ou marido é natural que as amigas nos queiram emparelhar com alguém. Quanto mais não seja porque a gestão de um jantar ou dos quartos num fim-de-semana se torna mais fácil se todos estiverem aos pares. Depois de algumas tentativas frustradas os outros perdem a esperança. Por seu lado, a amiga sozinha até agradece que cessem as tentativas de acasalamento. O que acontece é que as hipóteses de se conhecer alguém são tão limitadas que é preferível que esta aproximação ocorra num ambiente controlado, entre pessoas que conhecem as partes e estão lá para apoio e incentivo, para o bem e para o mal, em vez de confiar que o destino nos vai fazer tropeçar no homem do resto da nossa vida numa fila de supermercado.
4. Estar agarrada a rotinas
Eu, nos meus momentos de solteira, remeto-me para uma rotina de trabalho-ginásio, com saídas esporádicas com as amigas numa opção deliberada de evitar programas com casais. A experiência própria e alheia já me provou de forma consistente que só conhecemos pessoas quando saímos da nossa zona de conforto.
5. Estar agarrada ao passado
Esta é forte. Muitas mulheres que conheço continuam a carpir as dores da última separação. Estão de luto e ainda em sofrimento mas para o mundo são umas ressabiadas. Todos temos passado e histórias mal resolvidas, no amor e na vida profissional. Sabemos também pela experiência que só avançamos etapas nesta caminhada que é a vida quando encaramos esses episódios como apenas mais um dos workshops de aprendizagem que faz parte da nossa formação.
6. Não dedicar tempo à procura do amor
Por mais pindérica que pareça a afirmação a verdade é que a partir de certo momento as pessoas desistem de encontrar uma cara-metade. Resignam-se ao facto de que ficarão sozinhas até ao fim da vida e declaram que todos os homens que valem a pena estão casados, são maricas ou são uns filhos da mãe. Apesar de ser céptica em relação a estas tretas tenho de voltar a referir a "lei da atracção" que prescreve que temos de desejar muito uma coisa para que ela de facto se torne realidade.
7. Desistir facilmente
A química que se gera entre duas pessoas é um fenómeno estranho e inexplicável. O ideal romântico é conhecermos alguém que nos faz tremer as pernas logo ao primeiro olhar. Quando tal não acontece - até porque convenhamos a idade e a experiência refreiam bastante os ímpetos inconscientes da paixão - não há qualquer razão para não dar tempo ao tempo na expectativa de o "homem simpático" que conhecemos e não fez faísca se revele como candidato com potencial.
8. Não gostar de "encontros" 
Esta entendo bem. É um pouco cansativo conhecermos alguém de novo e de repente termos de lhe fazer um briefing de quem somos, valorizando os nossos pontos fortes, contando o que nos aconteceu de relevante na vida e que explica a pessoa em que nos tornamos sem entrar em detalhes que revelam as nossas fragilidades. Sei de pessoas que têm um guião de "conversa de primeiro encontro", o que é um método interessante mas que se pode tornar aborrecido e repetitivo quando não se tem vocação para representar. Todas temos um ideal de primeiro encontro à filme com um jantar que se prolonga até ao nascer do Sol. Mesmo quando o primeiro encontro ocorre num local ruidoso sem lugares sentados como o mercado de Campo de Ourique, ou num sítio sem charme como a praça de alimentação de um shopping, mais vale arriscar e ser tão espontânea quanto as circunstâncias permitem em vez de ficar por casa a preguiçar no sofá. 
9. Não fazer as perguntas certas 
Isto tem a ver com a conversa que se tem num primeiro encontro. É normal falar de trabalho, de viagens, de restaurantes e dos amigos comuns. Conhecer alguém pressupõe fazer perguntas surpreendentes sem entrar em detalhes sentimentais. Por exemplo: Qual foi o maior desafio que já tiveste na vida? Qual foi o momento em que te sentiste mais realizado? Como imaginas a tua vida daqui a dez anos? 
10. Colocar demasiada pressão sobre si próprias
Há pessoas que estão felizes sozinhas, o que as torna mais exigentes em relação ao parceiro com vantagens competitivas suficientes para entrar no seu espaço. Outras sentem-se miseráveis na condição de solteiras o que as coloca num estado de desespero que assusta qualquer candidato. Para além da pressão pró ou anti-solidão que as mulheres naturalmente se infligem, há ainda a dos pais, irmãos, primos, sobrinhos, amigos e anónimos que inevitavelmente perguntam, criticam ou olham com ar condescendente para as pessoas que se aventuram a sair à rua sem acompanhante.

Na prática, estar solteira ou divorciada há-de ser tão difícil quanto estar mal casada, mas como encontrei este artigo na net decidi partilhar já que o estado civil é um dos atributos que define a nossa marca.